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Atualizado: 2 semanas 1 dia atrás

Burnout: Veja as diferenças entre a síndrome, o estresse e a depressão

ter, 11/01/2022 - 16:12

A síndrome de burnout passou a ser considerada uma doença ocupacional por conta da nova classificação da Organização Mundial da Saúde (OMS) desde 1º de janeiro. Burnout Getty Images Desde 1° de janeiro, a Síndrome de Burnout, também conhecida como Síndrome do Esgotamento Profissional, passou a ser considerada uma doença ocupacional por conta da nova classificação da Organização Mundial da Saúde (OMS). A doença foi oficializada como estresse crônico de trabalho. A OMS explica que o esgotamento "se refere especificamente a fenômenos relativos ao contexto profissional e não deve ser utilizado para descrever experiências em outros âmbitos da vida". A mudança na definição da síndrome a torna um fenômeno ligado ao trabalho, não ao trabalhador. Compartilhe esta notícia no WhatsApp Compartilhe esta notícia no Telegram Com isso, o burnout passou a ser tratado de diferentes formas. Os trabalhadores passaram a ter os mesmos direitos trabalhistas e previdenciários previstos nas demais doenças relacionadas ao trabalho. Uma pesquisa com mais de 30 mil trabalhadores de 31 países, encomendada pela Microsoft para a série The Work Trend Index e divulgada em março do ano passado, mostrou que: 54% dos entrevistados sentem que estão trabalhando em excesso 39% relatam estado de exaustão 41% pensam em pedir demissão No Brasil, uma pesquisa realizada em 2020 mostrou que 83% dos profissionais de saúde demonstram sinais da síndrome de burnout. A doença apareceu em 79% dos médicos; 74% dos enfermeiros; e 64% dos técnicos de enfermagem. Os dados também apontaram que, quanto mais jovem o profissional, maior a chance de esgotamento, e que a síndrome aparece mais em mulheres (veja vídeo mais abaixo). Veja abaixo as principais características dos três problemas: Burnout: é uma síndrome resultante de estresse crônico e necessariamente tem origem no ambiente de trabalho; Depressão: é uma doença psiquiátrica crônica, que afeta pessoas de todas as idades; Estresse: é uma reação fisiológica automática do corpo a circunstâncias que exigem ajustes comportamentais. Entenda o que são essas condições, seus sintomas e tratamentos: Burnout O que é? Necessariamente relacionado ao trabalho, o burnout é um transtorno que se desenvolve gradualmente por conta de desajustes entre o trabalho e o indivíduo. Ele afeta homens e mulheres que vivem situações de estresse constante ou prolongado no ambiente de trabalho. A síndrome pode ser decorrente de uma carga horária excessiva, falta de reconhecimento dos chefes ou de um cansaço profundo, por exemplo, que não se resolve apenas com descanso ou férias. Outros fatores que podem desencadear o burnout são: Excesso de responsabilidades Pouca autonomia para tomar decisões Falta de justiça no ambiente de trabalho Conflitos de valor no trabalho Sintomas Cansaço extremo, irritabilidade, alterações repentinas de humor: os sintomas do burnout muitas vezes são semelhantes aos de outras condições de saúde como a ansiedade e a depressão. Os principais efeitos do burnout são: Cansaço excessivo físico e mental Dor de cabeça frequente Alterações no apetite Insônia Dificuldades de concentração Alteração nos batimentos cardíacos Por ter sintomas parecidos com os da depressão e da ansiedade, a síndrome muitas vezes não é identificada corretamente. No Brasil, o Ministério da Saúde afirma que a síndrome de burnout "pode resultar em estado de depressão profunda e, por isso, é essencial procurar apoio profissional no surgimento dos primeiros sintomas." Os três elementos principais que caracterizam o burnout e o diferenciam de outras condições são: Exaustão: a sensação de que a pessoa está indo além de seus limites e desprovida de recursos, físicos ou emocionais, para lidar com as situações. Mesmo férias ou licenças por motivos de saúde não resolvem o aparente cansaço. Ceticismo: a reação constantemente negativa diante das dificuldades, a falta de interesse no trabalho, ou, ainda, a falta de preocupação com os resultados. O ceticismo é uma forma de insensibilidade, que pode ser agressiva mesmo em relação a amigos e familiares. Ineficácia: a sensação de incompetência, que ocorre quando a pessoa se sente sempre desqualificada, pouco reconhecida e improdutiva. Dois resultados da presença desses elementos são o "absenteísmo", quando a pessoa começa a faltar demais ao trabalho, ou o "presenteísmo", que ocorre quando o indivíduo vai trabalhar mas está mentalmente ausente ou com o pensamento distante das atividades que realiza. LEIA TAMBÉM: Três sinais de que você pode ter síndrome de burnout OMS define síndrome de burnout como 'estresse crônico' Burnout saiu do mundo do trabalho e invadiu outras esferas da vida, diz escritora Por que geração millenial enfrenta estresse e burnout em cargos de chefia Drauzio Varella explica a síndrome de Burnout Tratamento Assim como outros problemas psicológicos, o burnout precisa ser tratado por um psiquiatra e acompanhado por um psicólogo. Segundo o Ministério da Saúde, "o diagnóstico é feito por psiquiatras e psicólogos após análise clínica do paciente e são eles os profissionais de saúde indicados para orientar a melhor forma de tratamento, conforme o caso". A psicoterapia é o tratamento mais comum, mas o médico psiquiatra pode também prescrever medicamentos como antidepressivos e ansiolíticos. Parte do tratamento consiste em mudar as condições do trabalho que levaram a pessoa à exaustão profunda. Também costuma-se recomendar atividade física regular, atividades de lazer, passar mais tempo com familiares e amigos, e exercícios para aliviar a tensão, por exemplo. Depressão O que é? A depressão é uma doença psiquiátrica crônica, que pode afetar pessoas de todas as idades, incluindo crianças e idosos. Segundo a OMS, mais de 300 milhões de pessoas em todo o mundo sofrem da doença, que pode ser uma condição de saúde muito grave, especialmente quando é classificada com intensidade moderada ou severa. Nos piores cenários, a depressão pode levar ao suicídio, que é a segunda maior causa de morte em jovens de 15 a 29 anos em todo o mundo. Diversos fatores podem contribuir para o aparecimento da depressão. Os três mais comuns são: Predisposição genética Eventos traumáticos Estresse crônico Dra. Ana Escobar, colunista do G1: Síndrome de burnout é um esgotamento físico e mental Esses elementos podem provocar uma diminuição nos níveis da serotonina, que é um neurotransmissor essencial na comunicação entre os neurônios. Ele ajuda a produzir sensações de bem-estar vitais para o bom funcionamento do organismo. Quando o corpo identifica a falta da serotonina no cérebro, as transmissões de impulsos elétricos ficam prejudicadas e, com o passar do tempo, surgem reações em cadeia. A escassez do neurotransmissor pode interferir no humor, no sono, na alimentação, na vida sexual e na produtividade do indivíduo. Sintomas Perda de prazer Irritabilidade Distúrbio do sono Cansaço Falta de vontade de fazer coisas ou esforço extra para fazer as coisas Choro fácil ou apatia Falta de memória e de concentração Tratamento O tratamento para a depressão, segundo a OMS, é dividido em níveis. Para os casos iniciais de depressão ou para pessoas com depressão leve são recomendados tratamentos psicossociais, como terapia cognitivo-comportamental e psicoterapia interpessoal. Os antidepressivos são eficazes no caso de depressão moderada e grave. Entretanto, os médicos e pacientes devem ficar atentos aos efeitos adversos associados aos medicamentos, como náuseas tonturas, disfunção sexual e aumento de peso. No caso das crianças e adolescentes, o cuidado deve ser ainda maior. Em um estudo britânico publicado no periódico médico “The Lancet” foram identificados cerca de 14 antidepressivos ineficazes em crianças, que podem inclusive ser perigosos se usados na infância. Os medicamentos para depressão também são receitados para combater o desequilíbrio químico no cérebro, restabelecendo a produção de serotonina. Os primeiros efeitos da medicação podem demorar algumas semanas para aparecer e o tratamento completo dura, no mínimo, um ano. É extremamente importante seguir o tratamento de maneira correta para alcançar um resultado positivo. Burnout e a Responsabilidade do Empregador Divulgação Estresse O que é? O estresse, diferente da depressão, é a maneira como o corpo reage diante de diferentes situações de grande esforço emocional. Ele também pode atingir pessoas de todas as idades. Quando o corpo é estimulado, a mensagem chega à parte do cérebro chamada de hipotálamo, que a envia para uma glândula que fica logo abaixo. Ela produz hormônios que se espalham pela corrente sanguínea até chegar a outras glândulas que ficam acima dos rins. São elas que produzem os hormônios adrenalina e o cortisol. A liberação de cortisol é importante para a manutenção da sobrevivência, mas deve ocorrer na dosagem certa. Quando atinge picos, pode causar problemas. O cortisol é considerado o hormônio do estresse crônico porque, diferente da adrenalina, que causa as reações e vai embora, ele permanece no organismo. O cortisol inflama o organismo, que vai responder em vários órgãos: cérebro, intestino, células adiposas. Mesmo situações positivas podem causar estresse, mas nesses casos a liberação de hormônios tende a estimular o indivíduo. No caso de situações negativas, o efeito emocional pode ser bastante nocivo à saúde. As principais causas desse tipo de estresse são: Conflitos no ambiente familiar Dificuldades financeiras Problemas de saúde na família Dificuldades no trabalho ou a falta dele Relacionamentos tóxicos Divórcio Excesso de responsabilidades Uma pesquisa online feita pelo Instituto de Psicologia e Controle do Stress (IPCS) com 2.195 brasileiros mostrou que 34% dos entrevistados tinham um nível de estresse considerado excessivo. Doenças ligadas aos sistemas nervoso e digestivo, em alguns casos, podem estar relacionadas ao estresse. Apesar de nem sempre levar a transtornos, o estresse contínuo e intenso pode ser um indício de transtornos psiquiátricos. “O estresse em si não é uma doença, mas pode ser o gatilho. O estresse é simplesmente a adaptação que uma pessoa enfrenta por causa de uma situação imprevista, como uma promoção indesejada, por exemplo”, explica Ana Maria Rossi. O problema começa quando essas situações estressantes não podem ser superadas. “Quando essa situação negativa é muito prolongada ou muito frequente, começa a ter sequelas, que podem virar doenças”, afirma a psicóloga. Sintomas Segundo a Sociedade Americana do Coração, comer, fumar ou beber para se acalmar, trabalhar de forma exagerada, adiar tarefas e dormir menos ou mais podem ser os primeiros sintomas do estresse. Em casos de estresse contínuo, alguns sintomas físicos podem surgir com o tempo. Os mais comuns são alergias, doenças de pele, doenças autoimune, refluxo, doenças intestinais, insônia, infecção urinária e aumento de sintomas em pacientes cardíacos. Tratamento Quando a pessoa já está inserida em uma situação de estresse, a orientação é identificar o principal fato estressante e resolvê-lo. A principal forma de tratamento para o estresse é a prevenção das situações que podem causar grande esforço emocional. As formas de fazer esta prevenção são as mais diversas e cada pessoa encontra a melhor forma de relaxar. Entretanto, algumas dicas valem para todas as pessoas, como fazer alimentações saudáveis e, principalmente, atividade física, que é responsável por liberar os hormônios do prazer: endorfina, serotonina e dopamina. Esses hormônios melhoram o humor e trazem a sensação de bem-estar. Veja mais dicas para evitar o estresse: Respire fundo Faça atividades físicas Invista em trabalhos manuais Pratique meditação Durma bem Alimente-se de forma saudável Segundo o Ministério da Saúde, o Sistema Único de Saúde (SUS) está equipado para oferecer assistência aos pacientes com sofrimento ou transtorno mental, inclusive a síndrome de burnout e a depressão. Na rede pública, os Centros de Atenção Psicossocial (Caps) são os locais mais indicados para o tratamento.
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Cirurgiões americanos transplantam com sucesso um coração de porco em uma pessoa

seg, 10/01/2022 - 23:37

David Bennett, de 57 anos, não tinha condições de receber coração humano. Animal doador pertencia a rebanho que passou por procedimento de modificação genética; Órgão permaneceu em máquina para preservá-lo antes da cirurgia, e equipe usou novo medicamento junto com substâncias convencionais para suprimir sistema imunológico e impedir rejeição. Cirurgiões realizam transplante de coração em David Bennett no Centro Médico da Universidade de Maryland, em Baltimore, em foto de 7 de janeiro University of Maryland School of Medicine (UMSOM)/Handout via Reuters Uma equipe de cirurgiões americanos transplantou com sucesso o coração de um porco geneticamente modificado em um humano, algo inédito no mundo, informou a universidade Maryland Medical School nesta segunda-feira (10). Compartilhe esta notícia no WhatsApp Compartilhe esta notícia no Telegram A operação foi realizada na sexta-feira e demonstrou pela primeira vez que o coração de um animal pode continuar a bater em um ser humano sem rejeição imediata, explicou em comunicado. O paciente, David Bennett, não tinha condições de receber um coração humano. O residente de Maryland, de 57 anos, está sob vigilância médica para analisar o funcionamento de sue novo órgão. "Era morrer ou fazer esse transplante. Eu quero viver. Eu sei que é um tiro no escuro, mas é minha última opção", declarou Bennett um dia antes da operação. Bennett, que passou os últimos meses acamado e ligado a uma máquina de suporte à vida, acrescentou: "Estou ansioso para sair da cama assim que me recuperar". A Agência de Alimentos e Medicamentos (FDA) americana concedeu uma autorização de emergência para a cirurgia na véspera de Ano Novo, como a última chance para um paciente que não estava apto para um transplante convencional. "Esta foi uma cirurgia revolucionária e nos deixa um passo mais perto de resolver a crise de escassez de órgãos", disse Bartley Griffith, que transplantou o coração do porco. "Estamos procedendo com cautela, mas também estamos otimistas de que esta primeira operação cirúrgica do mundo será uma nova e importante opção para os pacientes no futuro", acrescentou. David Bennett posa com o cirurgião Bartley P. Griffith antes de sua cirurgia, no Centro Médico da Universidade de Maryland, em Baltimore, em foto não datada University of Maryland School of Medicine (UMSOM)/Handout via Reuters O porco doador pertencia a um rebanho que passou por um procedimento de modificação genética para remover um gene que produz um açúcar que teria desencadeado uma forte resposta imune de um ser humano e causado a rejeição do órgão. A modificação foi realizada pela empresa de biotecnologia Revivicor, que também forneceu o porco usado em um transplante de rim inovador em um paciente com morte cerebral em Nova York em outubro. O órgão doado permaneceu em uma máquina para preservá-lo antes da cirurgia, e a equipe também usou um novo medicamento junto com outras substâncias convencionais para suprimir o sistema imunológico e impedir que rejeite o órgão. Trata-se de um composto experimental fabricado pela Kiniksa Pharmaceuticals. Cerca de 110 mil americanos estão atualmente esperando por um transplante de órgão, e mais de 6 mil pacientes morrem a cada ano antes de receber um, de acordo com dados oficiais. Para atender à demanda, os médicos há muito se interessam pelo chamado xenotransplante, ou doação de órgãos entre espécies, com experimentos que remontam ao século 17. As primeiras pesquisas se concentraram na extração de órgãos de primatas. Por exemplo, um coração de babuíno foi transplantado em um recém-nascido conhecido como "Baby Fae" em 1984, mas este sobreviveu por apenas 20 dias. Hoje, as válvulas cardíacas de porco são amplamente utilizadas em humanos, e a pele de porco é enxertada em pessoas que sofreram queimaduras. Os porcos são doadores ideais devido ao seu tamanho, crescimento rápido, ninhadas grandes e ao fato de estarem prontamente disponíveis, sendo criados para alimentação. Vídeos: Os mais assistidos do g1 nos últimos 7 dias
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Os superalimentos desprezados que poderiam ajudar a reduzir a fome no Brasil

seg, 10/01/2022 - 11:42

Abundantes e ricas em nutrientes, várias espécies alimentícias nativas têm perdido espaço em lares e supermercados brasileiros enquanto o país sofre com inflação de alimentos e fome crescente. Ora-pro-nóbis integra culinária típica de Minas Gerais, mas é pouco conhecida em vários outros Estados. PREFEITURA DE BH A cada ano, entre 60 e 70 milhões de toneladas do fruto mais rico em carotenoides do mundo amadurecem no Brasil, mas só uma ínfima parcela é aproveitada por humanos. A informação está em "Frutas comestíveis na Amazônia", livro do botânico Paulo Bezerra Cavalcante, lançado em 2010. A estimativa trata do buriti, fruto de uma palmeira abundante na Amazônia e no Cerrado, mas desprezado pela indústria alimentícia. As propriedades antioxidantes do buriti ajudam a prevenir câncer e outras doenças. Versátil, ele pode ser consumido in natura ou transformado em farinha, doces e pães. Compartilhe essa notícia por WhatsApp Compartilhe essa notícia por Telegram Ainda assim, o fruto é uma das várias espécies alimentícias nativas do Brasil que têm perdido espaço em lares, restaurantes e mercados ao mesmo tempo em que a fome cresce e a comida encarece no país. Leia também: Recordes no agronegócio e aumento da fome no Brasil: como isso pode acontecer ao mesmo tempo? Seca, geada e menos boi no pasto: a variação dos preços dos alimentos em 2021 Muitas dessas espécies produzem frutos comestíveis. Outras são hortaliças que nascem espontaneamente em campos agrícolas e canteiros, mas são vistas como ervas "daninhas". Em comum, muitas delas são considerados superalimentos por terem grande quantidade de nutrientes — como minerais, vitaminas e antioxidantes. 'Matos' comestíveis Resistentes, várias hortaliças espontâneas comestíveis toleram grandes variações climáticas e dispensam cuidados especiais. Um exemplo é o caruru, que tem folhas com propriedades semelhantes às do espinafre e sementes com 17,2% de proteínas. Outra planta é a beldroega, rica em ômega-3 e nas vitamina B e C, além de ter propriedades antioxidantes. Todos os anos, porém, muitos agricultores recorrem a herbicidas para destruir grandes quantidades de caruru e beldroega antes de substituí-las por espécies exóticas. E, em muitos casos, as novas espécies plantadas têm menos nutrientes que as anteriores, são mais sujeitas a pragas e são dependentes de fertilizantes, cujos preços também estão em alta. Pesquisador do ramo da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) dedicado a hortaliças, o agrônomo Nuno Rodrigo Madeira diz à BBC News Brasil que hortaliças como o caruru e a beldroega têm mais nutrientes que várias verduras convencionais justamente por serem mais resistentes. "Como elas não são adubadas, elas disparam processos metabólicos para conseguir viver na adversidade e aguentar calor e seca, e isso faz com que fiquem mais nutritivas para a gente", afirma. Para Madeira, o desprezo por essas espécies se deve ao "afastamento entre a sociedade e a origem do alimento". "Nós nos distanciamos da produção, só entendemos mercados, e o ente mercado quer que a gente gaste mais, senão o PIB reduz", afirma. Vender nos supermercados hortaliças que crescem sozinhas como "matos", diz ele, não seria tão lucrativo quanto vender as verduras convencionais - daí a resistência do setor em incorporar esses itens. Só a lógica comercial, segundo Madeira, explica que em uma cidade quente como Manaus agricultores recorram a pedras de gelo para conseguir cultivar hortaliças como a alface, enquanto tantas espécies nativas adaptadas ao calor são deixadas de lado. E isso não ocorre só no Brasil. Caruru cresce espontaneamente em jardins e canteiros agrícolas de todo o Brasil. KEW SCIENCE Professor do Instituto Federal do Amazonas (Ifam) em Manaus, o botânico Valdely Kinupp diz à BBC que 90% do alimento mundial hoje vem de 20 tipos de plantas - embora se estime que até 30 mil espécies vegetais tenham partes comestíveis. Os números soam ainda mais paradoxais no Brasil, país que abriga entre 15% e 20% das espécies vegetais do planeta, mas alimenta a maior parte de sua população com o mesmo cardápio limitado - e majoritariamente estrangeiro. São estrangeiros quase todos os principais produtos agrícolas do país, como a soja (China), o milho (México), a cana-de-açúcar (Nova Guiné), o café (Etiópia), a laranja (China), o arroz (Filipinas) e a batata (Andes). Entre as raras plantas que fizeram o caminho inverso, saindo do Brasil para ganhar outras partes do mundo, estão a mandioca, o cacau e o amendoim. "É muito pouco", diz Kinupp. "Vivemos um imperialismo agroalimentar." No livro "Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC) no Brasil", que Kinupp lançou com o colega botânico Harri Lorenzi em 2014, são listadas 351 espécies alimentícias "subutilizadas, mal conhecidas e negligenciadas" pela população brasileira. Muitas delas são nativas; outras, espécies exóticas já naturalizadas e aclimatadas ao país. Várias são conhecidas por uma série de nomes populares distintos (para evitar confusão, listamos no fim desta reportagem os nomes científicos das principais espécies citadas nesta reportagem). Kinupp é um dos principais líderes no Brasil de um movimento pela valorização das PANC, o acrônimo que batiza seu livro. Nos últimos anos, embalados pelo movimento, alguns mercados e feiras ampliaram a oferta de PANC, chefs as incorporaram em restaurantes, e cozinheiros criaram contas no Instagram e YouTube para compartilhar receitas. Mas ele afirma que ainda falta muito para que essas plantas deixem de ser consideradas "não convencionais". No caso das espécies silvestres presentes na lista, por exemplo, é preciso que agricultores e instituições de pesquisa se dediquem a estudá-las - assim como fazem há milênios com plantas como o arroz e o trigo. E quando a planta só existe em ambientes naturais, como o buriti, deve-se trabalhar com comunidades tradicionais e pequenos agricultores para apoiar redes de coleta, beneficiamento e comercialização com preço justo. O que é PANC Kinupp esclarece que algumas plantas do livro são consumidas em partes do país, mas ignoradas em outras. Uma das espécies que mais o entusiasmam é o cará-de-espinho, uma trepadeira nativa das regiões Norte, Centro-Oeste e Sudeste que produz tubérculos comestíveis que podem ultrapassar 180 kg. "Essa planta é a solução para a agricultura no trópico úmido", afirma. Segundo o pesquisador, os tubérculos podem ficar armazenados por até 120 dias fora da geladeira sem apodrecer e podem ser consumidos como a batata (frita, cozida, em purê) ou virar farinha. Hoje, no entanto, ele afirma que a espécie só é consumida em aldeias indígenas e em comunidades rurais no Baixo Amazonas. Outras espécies citadas no livro têm mais penetração popular ou já foram mais consumidas - caso da ora-pro-nóbis, um arbusto com frutos, flores e folhas comestíveis originário do Sul, Sudeste e Nordeste do Brasil, e que pertence à culinária típica de Minas Gerais. Seus frutos são ricos em carotenoides e vitamina C, e as folhas, quando desconsiderada a água, têm até 35% de proteína. Outro exemplo é o babaçu, palmeira nativa do Mato Grosso e de vários Estados do Nordeste, cuja castanha pode ser consumida cru ou torrada, além de processada para extração de leite ou transformada em farinha para pães e mingaus. Essa castanha contém de 60% a 70% de óleo rico em ácido láurico, similar ao presente no óleo de coco e no azeite de dendê. Em 1984, a Embrapa identificou a existência de 12 a 18 milhões de hectares de babaçuzais no Brasil. Na página de seu livro dedicada à espécie, Lorenzi e Kinupp afirmam que o babaçu tem "grande potencial alimentício" e "deveria estar no mercado". E houve uma época em que o fruto de fato esteve nas prateleiras. Na década de 1990, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), cerca de 300 mil famílias trabalhavam com o fruto. Em 2017, no entanto, o número havia despencado para 15 mil famílias. Pesquisadora em agricultura familiar e desenvolvimento sustentável da Embrapa Cocais, no Maranhão, a agrônoma Guilhermina Cayres diz que hoje quase toda a extração atual é destinada à indústria de cosméticos e materiais de limpeza. Ela afirma à BBC que o Maranhão chegou a ter várias indústrias dedicadas à produção de óleo de cozinha de babaçu. Porém, o setor não foi capaz de competir com o óleo de soja, mais barato, e tem sofrido com a expansão da pecuária sobre os babaçuzais. Além disso, Cayres afirma que muitos trabalhadores deixaram o babaçu por associá-lo à pobreza e por considerar a atividade extenuante. Grande parte do serviço das famílias consiste em quebrar artesanalmente o coco que abriga as castanhas, função desgastante e normalmente assumida por mulheres. A pesquisadora diz esperar que o cenário mude com o desenvolvimento pela Embrapa de uma ferramenta que facilita a quebra do coco. A invenção, que já está sendo fabricada por uma pequena empresa local, foi finalista de um prêmio sobre tecnologias sociais da Fundação Banco do Brasil em 2021. Cayres também aposta no desenvolvimento de produtos com maior valor agregado à base de babaçu, como biscoitos e sorvetes. Comida que vai para o lixo Também são consideradas PANC espécies que são consumidas nacionalmente, mas têm partes comestíveis descartadas pela maioria. Um exemplo é o miolo do mamoeiro, que pode ser transformado em doces e farinha. Outro, o mangará ("coração") da bananeira, que pode ser servido refogado ou como recheio de pastéis. Hoje, porém, quase todas as plantações comerciais de mamão e banana do país desprezam os itens. Até mesmo a polpa de um fruto bastante popular, o caju, é descartada às toneladas no Nordeste por indústrias que processam a castanha da fruta, diz à BBC News Brasil o sociólogo Carlos Alberto Dória, autor de vários livros sobre gastronomia. "Os galhos (dos cajueiros) são usados como lenha, e a castanha é torrada e exportada", ele diz. "O resto, a polpa, vai para o lixo em quantidade expressiva", afirma. Um dos sócios do Lobozó, restaurante em São Paulo inspirado nas antigas culinárias caipira e caiçara do Estado, Dória diz que o movimento pela valorização das PANC tem alcance limitado. "É uma coisa de classe média que quer experimentar novidade e que se angustia com o desprezo pela diversidade", afirma. Diz ainda que ingredientes regionais, que só sejam produzidos ou consumidos em partes do país, tendem a desaparecer das prateleiras porque a indústria privilegia produtos de alcance nacional. "A exceção talvez seja o açaí, um produto regional que virou uma commodity, mas isso é muito raro", afirma. Agricultura urbana Que meios então haveria para não só preservar mas também ampliar o acesso a alimentos tão ricos, que exigem tão pouco e ocorrem em abundância no Brasil? O pesquisador Nuno Rodrigo Madeira, da Embrapa Hortaliças, sugere três caminhos. O primeiro seria incentivar o cultivo de plantas alimentícias não convencionais, oferecendo apoio técnico aos agricultores, criando feiras para a venda desses itens e espaços para a troca de conhecimentos. O segundo seria aprofundar o debate sobre a comida nas escolas; ensinar às crianças desde cedo a importância de consumir produtos frescos e nutritivos, fazê-las se questionarem sobre a origem dos alimentos e entenderem como a comida é feita. Ele diz que o movimento em torno das PANC não é só sobre alimentação, mas também sobre aprender a observar a natureza, conseguir identificar as espécies que nos rodeiam, sentir-se parte de um sistema vivo e integrado. O terceiro caminho para diversificar e baratear a comida, segundo o pesquisador, seria reaproximar a produção de alimentos da população - especialmente a população que vive nas cidades. Pessoas que morem em casas com quintais poderiam se tornar quase autossuficientes em hortaliças, diz ele, se cultivassem alguns pés de espécies como ora-pro-nóbis, chaya ou moringa - todas elas árvores ou arbustos perenes que produzem folhas comestíveis em abundância o ano todo. Mas como nem todos têm espaço em casa para produzir, o pesquisador defende que as cidades destinem espaços para a criação de hortas urbanas. Ele afirma que é possível cultivar hortaliças para todos os habitantes de uma cidade em 10% de sua área - iniciativa que já vem sendo adotada com sucesso, segundo Madeira, em cidades como Detroit (EUA), Havana (Cuba) ou mesmo em Sete Lagoas, em Minas Gerais. A escolha das espécies levaria em conta as aptidões de cada local, mesclando plantas convencionais e não convencionais. Ele diz que a produção de alimentos dentro das cidades reduziria os custos deles, pois se economizaria com o transporte dos itens até os mercados, e poderia ocupar moradores de rua e outros grupos marginalizados. "Não faz sentido gastar um mundaréu de combustível para levar cenouras de um Estado para o outro, como é feito hoje no Brasil", diz. Madeira diz que o cultivo de alimentos foi justamente o que propiciou o surgimento dos primeiros núcleos urbanos da história, conforme famílias se agruparam em torno de plantações. "As cidades se formaram por causa da agricultura, e a agricultura não pode estar longe das cidades", diz. Principais espécies citadas na reportagem Babaçu (Attalea speciosa) Beldroega (Portulaca oleracea) Buriti (Mauritia flexuosa) Cará-de-espinho (Dioscorea chondrocarpa) Caruru (Amaranthus deflexus) Ora-pro-nóbis (Pereskia aculeata) Veja no vídeo abaixo a startup que encontrou uma forma de baratear alimentos orgânicos: Foodtech elimina intermediários para baratear alimentos orgânicos
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O envelhecimento pela lente de um Nobel da literatura

dom, 09/01/2022 - 07:00

No livro “Contos morais”, do escritor sul-africano J.M. Coetzee, assistimos ao declínio da personagem Elizabeth Costello, alter ego do autor “Contos morais” é o mais recente lançamento de J.M. Coetzee, escritor sul-africano vencedor do Nobel de literatura em 2003, no Brasil. Traz sete narrativas breves, escritas entre 2008 e 2017, e em cinco delas o envelhecimento de Elizabeth Costello, personagem que também é seu alter ego, serve como fio condutor da história. Coetzee a consagrou no livro “Elizabeth Costello”, de 2004; no entanto, ela já era protagonista em “A vida dos animais”, quando discorre sobre as questões filosóficas e éticas que envolvem nossas relações com os bichos. São almas gêmeas: além de escritores e vegetarianos, ambos enfrentam os desafios da velhice – em fevereiro, Coetzee completará 82 anos. J.M. Coetzee, escritor sul-africano vencedor do Nobel de literatura em 2003 Divulgação “Vaidade” trata do aniversário de 65 anos de Elizabeth. Quando os filhos, John e Helen, e a família dele a veem, levam um choque. A idosa, “que sempre usou o cabelo severamente curto”, tingiu as madeixas e está usando maquiagem. Não há reprovação explícita, mas estranhamento. “Não é para sempre. Fiquem tranquilos, é por pouco tempo. Vou voltar a ser eu mesma na hora certa, quando acabar a temporada. Mas quero que olhem para mim outra vez. Só uma ou duas vezes mais na minha vida, quero que olhem para mim como se olha para uma mulher. Só isso. Só um olhar”, é o que diz. Imagino que muita gente vai se identificar... Em “Quando uma mulher envelhece”, Elizabeth está com 72 anos e ainda vive na Austrália, seu país de origem. Em visita a Helen, que dirige uma galeria de arte em Nice (França), descobre que ela e John gostariam que se mudasse para perto de um dos dois: ou para um apartamento no mesmo prédio da filha, ou para a casa dele, em Baltimore, nos EUA. “Por que eu imporia a minha filha o fardo de cuidar de mim? E acredito que para você a questão seja: será que consegue conviver consigo mesma se não se propuser, ao menos uma vez, com toda sinceridade, a cuidar de mim e me proteger?”, questiona, fazendo questão de manter sua autonomia. No conto seguinte, “A velha e os gatos”, Elizabeth fez uma escolha radical, na direção oposta da que os filhos desejariam. Mudou-se para um povoado espanhol, onde vive numa casa rodeada de gatos meio selvagens. Ali também mora Pablo, um homem com problemas cognitivos de quem, na verdade, ela cuida. Para horror do John, conta que ele vai herdar aquela casa e terá a missão de alimentar os gatos. “Estou me preparando para o próximo lance. O último lance”, afirma. O quarto conto é “Mentiras”, que começa e termina com uma carta de John para a mulher, Norma. Ele está de volta ao povoado espanhol depois que a mãe sofreu uma queda e passou um período internada. Sua situação é frágil, mas ela se recusa a acolher a ideia de ir para uma instituição. No último, “O matadouro de vidro”, Elizabeth confessa: “eu não sou mais eu mesma, John. Está acontecendo alguma coisa comigo, com minha mente. Esqueço das coisas. Não consigo me concentrar”. Insiste em compartilhar com o filho relatos sobre a crueldade com os animais, que vai ser seu legado: “depois que eu for embora, haverá apenas o vazio. Será como se eles nunca tivessem existido. Por isso é que eu escrevo sobre eles e por isso eu quis que você lesse sobre eles. Para passar adiante a memória deles, para você. Só isso”. Ninguém lê Coetzee impunemente. O blog entrará em breve recesso e estará de volta no dia 23 de janeiro. Até lá!
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Por que nunca nasceram tantos bebês gêmeos quanto agora no mundo? G1 Explica

sab, 08/01/2022 - 13:08
Cerca de 1,6 milhão de gêmeos nascem por ano, e esse número nunca foi tão alto. Vídeo explica razões por trás desse boom e por que ele pode estar perto de acabar. Por que nunca nasceram tantos bebês gêmeos quanto agora no mundo? Você sabia que nunca nasceram tantos gêmeos quanto agora? São cerca de 1,6 milhão por ano no mundo todo, mas essa era das gestações múltiplas pode estar perto do fim. No vídeo abaixo, o g1 explica os motivos por trás do boom dos nascimentos em dupla e em trio (às vezes, até mais do que isso) e por que a ciência tem tentado evitar isso. Veja TODOS os vídeos do g1 Explica Siga o canal oficial do g1 no YouTube Como se inscrever Para seguir o g1 no YouTube é simples, basta clicar neste link. Ou você ainda pode acessar o canal do g1 no YouTube. Fazer o login e clicar no botão inscrever-se que fica no topo da página no lado direito.
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Começando 2022 bem: faça novos amigos

qui, 06/01/2022 - 07:01

Laços sociais diminuem a ansiedade, melhoram a autoestima e a saúde O blog abordou, em diversas ocasiões, a importância de ter amigos: laços sociais melhoram a autoestima, diminuem a ansiedade e fazem bem à saúde. No entanto, pelo menos um terço dos adultos acima dos 45 anos se sente só e 25% dos idosos com mais de 65 se encontram numa situação de isolamento. Com o passar do tempo, a tendência é de participarmos menos de ambientes que propiciam a criação de novas amizades, enquanto nosso círculo de relações vai encolhendo. Está na hora de quebrar esse círculo vicioso, porque as evidências científicas estão do lado da convivência com outros seres humanos. De acordo com artigo da plataforma Healthline, a segregação social está associada a um aumento de 50% no risco de demência; e ter uma rede pobre de relacionamentos aumenta em 29% a chance de doença coronariana, e em 32% a de derrame. Idosos jogam xadrez: ter um hobby permite estar na companhia de gente com as mesmas afinidades Tatyana Kazakova para Pixabay Como não adianta apenas pôr o dedo na ferida sem apontar alternativas, vamos a algumas. A primeira é criar um estado mental favorável para dar o primeiro passo: assim como nos primórdios das paqueras, na adolescência, é preciso estar aberto(a) para tomar a iniciativa de uma conversa ou de um convite, sem se sentir rejeitado(a) com um não. Na coluna de terça, eu havia mencionado como ajudar os outros é um tratamento eficaz contra a solidão. Por isso, considere a hipótese de participar de um trabalho voluntário, que vai garantir uma rotina de convivência com pessoas também empenhadas em fazer o bem. Faça uma busca na internet, para levantar as opções em sua cidade, ou procurar em sites como o Atados, que tem quase 3.500 ONGs cadastradas. Dedique tempo e energia à causa: as pessoas não vão bater na sua porta, mas você pode ver com outros olhos as que já estão à sua volta. Podem ser conhecidos da vizinhança, do trabalho, da igreja, e o primeiro movimento para formar laços talvez intimide menos. Aliás, os amigos dos amigos são uma opção, mas alimente o contato, aceite convites e estimule seu lado sociável, ainda que esteja meio enferrujado. Gentileza gera gentileza, portanto seja um bom ouvinte e demonstre curiosidade pelas atividades alheias. Ter um hobby ajuda bastante: em primeiro lugar, porque se trata de algo que nos traz prazer. Em segundo, porque nos permite estar na companhia de gente com as mesmas afinidades. Hoje em dia, duas comunidades entre as que mais crescem são as dos amantes de animais de estimação e as voltadas para algum tipo de atividade física – o que será ótimo para o corpo e para o cérebro. O mundo on-line embute inúmeras possibilidades de conexões digitais. Você pode procurar grupos que compartilhem seus interesses e, quando tivermos superado as limitações ainda impostas pelo coronavírus, o que era virtual tem potencial para se tornar presencial. E, se estiver lidando com uma carga muito pesada de sentimentos negativos por causa da solidão, não demore em pedir ajuda.
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Começando 2022 bem: doe e se doe

ter, 04/01/2022 - 07:01

Desapegue-se das coisas e abra espaço em sua vida para ajudar os outros Gostei da proposta que fiz na coluna de domingo e resolvi me dedicar a um desdobramento do tema “novas resoluções para o novo ano” durante esta semana. Uma das resoluções mais adiadas – e autossabotadas – é a de se desapegar das tralhas que vamos acumulando. Há, inclusive, diferentes caminhos para dar início ao processo e cada um deve escolher aquele que lhe agrada. A japonesa Marie Kondo se tornou um fenômeno editorial com seu método de organização e sugere criar categorias para pesquisar que itens serão descartados: roupas, livros, documentos e outros papeis, e assim por diante. Se já não têm serventia, nem trazem memórias que valem a pena ser preservadas, passe adiante ou jogue fora. Uma outra opção é criar apenas quatro alternativas para seus pertences: manter, doar, vender e jogar fora (ou reciclar, se der). Nesse caso, não existe a possibilidade de enfurnar as coisas numa caixa no alto do armário ou num depósito. Para as roupas, você pode pôr em prática o método do cabide, que é bem simples: vire todos os cabides com a parte aberta do gancho voltada na sua direção e marque a data no calendário. Ao guardar as roupas que for usando, ponha o cabide ao contrário, com a abertura do gancho voltada para dentro do armário, como se faz habitualmente. Depois de seis meses, confira o que não foi utilizado e separe para dar. A partir daí, para cada peça nova adquirida, escolha uma semelhante para ser dada. Cabides com a parte aberta do gancho voltada para fora do armário: método para avaliar que roupas são utilizadas Stevepb para Pixabay Para facilitar a jornada de desapego, trabalhe num cômodo de cada vez. Comece por algo pequeno: serve até o armário dos remédios; ou aquela gaveta onde ficam pilhas, tomadas e canetas que não funcionam... Sempre que titubear, pergunte-se: 1) Com que frequência uso esse item, ou nem me dou conta de que existe? 2) Tem valor sentimental? 3) Ainda funciona ou tem alguma afinidade com meu estilo de vida? 4) Poderia se transformar num presente apreciado por um amigo ou parente? Você pode fazer fotos de objetos que trazem boas lembranças e digitalizar recordações como ingressos de shows e desenhos das crianças. O mesmo vale para documentos, CDs e DVDs. Se for se mudar para um lugar menor, não terá como fugir da questão: o que realmente importa guardar? Para funcionar, dê início ao processo três meses antes. Sei que vai doer para os amantes dos livros, entre os quais me incluo, mas o roteiro de perguntas é semelhante: lerei essa obra de novo? Preciso dela para consultas frequentes? As informações estão disponíveis on-line? Vou querer repor o livro se perdê-lo, ou nem perceberei? Tenho prazer em manter esse exemplar, continua relevante, ou apenas o conservo para me lembrar que o li tempos atrás? Por último, doe-se. No fim de dezembro, o jornal “The New York Times” publicou artigo sobre como ajudar os outros é um tratamento eficaz contra a solidão. Num estudo realizado no Reino Unido com 10 mil voluntários, dois terços dele relataram que o trabalho voluntário fez com que se sentissem menos solitários – e isso foi especialmente importante para os que estavam na faixa etária entre 18 e 34 anos.
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A gente se encontra no metaverso!

qui, 30/12/2021 - 07:01

Ambiente digital, que vai fundir videogames, redes sociais e entretenimento, poderá revolucionar a saúde e a educação A expressão metaverso foi criada pelo escritor Neal Stephenson em seu livro “Nevasca” (“Snow crash”), em 1992, para se referir a um mundo virtual no qual as pessoas se encontravam, namoravam, jogavam e faziam compras. No limiar de 2022, significa um ambiente 3D no qual videogames, redes sociais e entretenimento vão se fundir para criar experiências de imersão. Ali, através de seus avatares, os participantes vão interagir e fazer tudo o que fariam na vida real, mas não sinta calafrios como se estivéssemos à beira do apocalipse. É claro que gigantes de tecnologia salivam diante do potencial do mercado – não foi à toa que Mark Zuckerberg rebatizou seu negócio como Meta – e basta imaginar as vendas de acessórios para seu avatar ser capaz de realizar proezas e estar na última moda. No entanto, o metaverso pode ser muito mais. Ele pode ajudar gente de carne e osso. Menina brinca com visor de realidade virtual: metaverso vai fundir videogames, redes sociais e entretenimento Yohoprashant para Pixabay Alguém se lembra do Second Life? Lançado em 2003, tornou-se uma febre e todas as empresas queriam estar naquela réplica do nosso mundinho, até que micou e sumiu do mapa. Vamos considerá-lo uma espécie de avô do metaverso. De lá para cá, a tecnologia evoluiu aos saltos, com visores de realidade virtual (RV), realidade aumentada (RA), realidade mista (que une características de RV e RA), telas de alta definição, luvas de controle e outros dispositivos que podem ser vestidos (wearables). Tudo isso, junto e misturado, será o metaverso. Verdade que, de lá para cá, também enfrentamos o tsunami de fake news e redes de ódio, mas fico seduzida pelas lentes dos otimistas, que enxergam o metaverso como uma plataforma capaz de revolucionar a saúde, o ensino, as relações humanas. Para começar com algo potente: é um espaço com grande potencial para aliviar sintomas de ansiedade, dor ou depressão. No Instituto de Tecnologias Criativas, na Universidade do Sul da Califórnia, o psicólogo Albert “Skip” Rizzo já utiliza a realidade virtual para tratar o transtorno de estresse pós-traumático de veteranos das guerras do Iraque e Afeganistão. Na chamada terapia de exposição, o paciente, guiado por um terapeuta treinado, confronta seus traumas através da simulação dessas experiências. Usando um visor, entra num ambiente virtual com diferentes cenários daqueles países, que vão de cidades a estradas desertas. Vítimas de queimaduras atendidas num programa da Universidade de Washington, crianças internadas no Hospital Los Angeles e mulheres em trabalho de parto no Cedars-Sinai se valem da realidade virtual para auxiliar no controle da dor. Nesses casos, os pacientes entram sozinhos no ambiente virtual; no metaverso, estariam acompanhados por familiares, médicos e enfermeiros, numa vivência provavelmente ainda mais benéfica. No Centro de Simulação e Inovação em Educação Médica da Universidade de Miami, os alunos interagem com um manequim que reproduz praticamente todo tipo de distúrbio cardíaco. Usando headsets de RV, visualizam tudo o que ocorre dentro do “organismo” e aprendem o que deve ser feito em cada situação. Treinamentos virtuais permitem que os estudantes cometam erros e recebam a orientação correta sem causar danos a pacientes reais. Os sedentários receberão uma ajuda extra para se exercitar: imersos num universo paralelo com visores, se desviarão de obstáculos, socarão formas (ou inimigos) que se aproximam e, inclusive, contarão com companheiros nessa jornada. O headset Oculus Quest 2 foi lançado durante a quarentena com grande sucesso, já que as pessoas estavam confinadas em casa. Uma versão turbinada e com mais opções de jogos de aptidão física é aguardada para 2022. A experiência imersiva do metaverso pode realmente trazer o mundo para a sala de aula, democratizar as viagens, levar a arte a qualquer lugar, fazer com que os seres humanos entendam melhor os problemas do planeta, como as mudanças climáticas. O prazo? Talvez menos de uma década. A gente se encontra lá!
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Por que a China reclamou de Elon Musk à ONU por risco de tragédia

ter, 28/12/2021 - 11:34

Dono da SpaceX foi alvo de intensas críticas nas redes sociais chinesas depois que estação espacial do país teve dois "encontros imediatos" com os satélites Starlink neste ano, afirmou Pequim. Dono da SpaceX foi alvo de intensas críticas nas redes sociais chinesas depois que estação espacial do país teve dois "encontros imediatos" com os satélites Starlink neste ano, afirmou Pequim Getty Images via BBC O americano Elon Musk, dono da Tesla e homem mais rico do mundo, foi alvo de intensas críticas nas redes sociais chinesas, depois que a China reclamou que a sua estação espacial foi forçada a evitar colisões com satélites lançados pelo projeto do bilionário, Starlink Internet Services. A estação espacial do país teve dois "encontros imediatos" com os satélites Starlink neste ano, afirmou Pequim. Compartilhe essa notícia no WhatsApp Compartilhe essa notícia no Telegram Os incidentes por trás das queixas, apresentadas à agência espacial da ONU, ainda não foram verificados de forma independente. Starlink é uma rede de Internet via satélite operada pela SpaceX, de Musk. Musk é bem conhecido na China, embora sua montadora de carros elétricos Tesla esteja sob crescente escrutínio dos reguladores. Elon Musk: a trajetória e as polêmicas do bilionário escolhido 'Personalidade do Ano' pela revista 'Time' Ministro pediu ajuda de Musk para levar internet à Amazônia Os incidentes ocorreram nos dias 1º de julho e 21 de outubro, de acordo com um documento apresentado pela China neste mês ao Escritório das Nações Unidas para Assuntos do Espaço Exterior (Unoosa). "Por razões de segurança, a Estação Espacial China implementou um controle preventivo de prevenção de colisões", disse Pequim no documento publicado no site da agência. A SpaceX não respondeu imediatamente a um pedido de comentário da BBC. SpaceX: 10 pontos sobre a companhia e seu polêmico fundador, Elon Musk Depois que a reclamação foi tornada pública, Musk, Starlink e os EUA foram duramente criticados na plataforma chinesa de microblog Weibo, semelhante ao Twitter. Um usuário descreveu os satélites da Starlink como "apenas uma pilha de lixo espacial". Os satélites são "armas americanas de guerra espacial" e "Musk é uma nova 'arma' criada pelo governo e militares dos EUA", disseram outros. Um usuário postou: "Os riscos da Starlink estão sendo gradualmente expostos, toda a raça humana pagará por suas atividades comerciais." A China também acusou os EUA de colocar os astronautas em perigo por ignorar as obrigações sob os tratados do espaço sideral. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Zhao Lijian, disse que a China está pedindo aos EUA que ajam com responsabilidade. Cientistas expressaram preocupação sobre os riscos de colisões no espaço e pediram aos governos mundiais que compartilhassem informações sobre os estimados 30 mil satélites e outros detritos espaciais que orbitam a Terra. A SpaceX já lançou quase 1,9 mil satélites como parte da rede Starlink e planeja implantar outros milhares. No mês passado, a Nasa, a agência espacial americana, adiou abruptamente uma caminhada no espaço saindo da Estação Espacial Internacional por causa de preocupações com detritos espaciais.
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Há descobertas promissoras para o tratamento do Parkinson

ter, 28/12/2021 - 07:00

Dois estudos indicam caminhos que podem levar a um novo patamar de intervenção terapêutica Como prometi no domingo, a última semana de 2021 será dedicada a boas notícias. Para os pacientes com Doença de Parkinson, que ocupa o segundo lugar entre as desordens neurodegenerativas mais frequentes, há o que se comemorar. A enfermidade, que começa a se manifestar por volta dos 60 anos e é mais comum entre os homens, afeta a capacidade do cérebro de controlar os movimentos, levando a tremores, rigidez muscular e alterações de marcha e equilíbrio. Pesquisadores da Universidade de Northwestern e do Centro Médico Weill Cornell, ambos nos Estados Unidos, e do Instituto de Biomedicina de Sevilha apresentaram um estudo promissor com camundongos que pode beneficiar quem se encontra num estágio avançado da doença. Nessa fase, o tratamento com a substância levodopa, que aumenta a quantidade de dopamina – neurotransmissor que ajuda a aliviar os sintomas do Parkinson – não apresenta a mesma eficácia. A nova terapia modificou geneticamente cobaias tendo como alvo a área do cérebro chamada substância negra, que é crucial para o controle motor, e restaurou a capacidade dos neurônios da região de converter a levodopa em dopamina. A Doença de Parkinson afeta a capacidade do cérebro de controlar os movimentos, levando a tremores, rigidez muscular, lentidão de movimentos e alterações de marcha e equilíbrio StockSnap para Pixabay Na Universidade de Georgetown (EUA), os cientistas fizeram uma descoberta inesperada ao se deparar com o mau funcionamento da barreira hematoencefálica (BHE) em alguns pacientes com Parkinson. Essa barreira é formada por células endoteliais alinhadas com os capilares e forma uma estrutura que funciona como um “filtro”, permitindo a entrada de moléculas essenciais e dificultando que substâncias prejudiciais atinjam o sistema nervoso central e o líquido cefalorraquidiano. Nos casos analisados, a barreira tinha um comportamento anômalo: não deixava as toxinas saírem do cérebro e impedia os nutrientes de entrar. Num estudo com 75 participantes com Parkinson severo, eles foram tratados com a substância nilotinibe, normalmente utilizada em casos de leucemia mieloide crônica. Ao fim de 27 meses, a droga havia se mostrado eficiente em deter o declínio motor dessas pessoas, mas os cientistas ainda puderam festejar uma segunda descoberta. A análise epigenômica do líquido cefalorraquidiano dos indivíduos apontou que a nilotinibe também desativava uma proteína (DDR1) que era responsável por minar a capacidade da barreira hematoencefálica de funcionar corretamente. Quando a DDR1 era “neutralizada”, o “filtro” passava a funcionar e o nível de inflamação diminuía a ponto de o neurotransmissor dopamina voltar a ser produzido. Esse achado, publicado na revista científica “Neurology Genetics”, pode levar a um novo patamar de intervenção terapêutica. Na indústria farmacêutica, o que foi feito com a nilotinibe – testar medicamentos que já existem para avaliar sua eficácia contra outras doenças – chama-se reposicionamento de fármacos. A Academia Norte-americana de Neurologia (AAN em inglês) divulgou recentemente uma atualização das recomendações da entidade para o uso de medicamentos dopaminérgicos – o documento anterior era de 2002. “Revisamos os estudos sobre a eficácia e os possíveis riscos dos medicamentos usados no manejo dos sintomas nos estágios iniciais da doença e avaliamos que, mesmo com os efeitos colaterais que toda droga apresenta, a levodopa é a melhor opção”, afirmou a médica Tamara Pringsheim, principal autora do trabalho. Ainda assim, a revisão feita pelos médicos da entidade fez a ressalva de que a levodopa tem mais chances de provocar discinesia (movimentos involuntários do rosto, braços, pernas ou tronco) nos cinco primeiros anos do tratamento. Para contornar o problema, a dose prescrita deve ser a mais baixa possível para chegar ao melhor custo/benefício.
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Mais uma do laboratório mundial do envelhecimento

dom, 26/12/2021 - 07:00

Robôs controlados remotamente por pessoas com severas limitações físicas atendem os clientes de um café em Tóquio Nesta última semana do ano, as colunas serão dedicadas ao futuro e às possibilidades (reais) de que a vida de todos nós possa melhorar. Em mais de uma ocasião, falei sobre o Japão como um laboratório onde são testadas soluções para os desafios do envelhecimento da população. Na edição de 11 de dezembro, a revista britânica “The economist” foi além, enfatizando que, como os japoneses já lidam com problemas que ainda vão se abater sobre os outros países, todas as suas ações deveriam ser observadas de perto. São questões de grande porte, como o risco de desastres naturais se tornarem catástrofes, como o acidente nuclear em Fukushima depois de um tsunami; as agruras de ficar “espremido” entre Estados Unidos e China; e, claro, como garantir que a longevidade seja realmente um bônus, e não um ônus, para os cidadãos. Robôs operados remotamente por pessoas com severas deficiências servem clientes no Dawn Café Divulgação: Ory Lab Poucos países têm investido tanto em robótica para contemplar as necessidades dos seres humanos. Essa é uma das boas histórias de fim de ano que tenho para contar. Em Tóquio, no café Dawn (Diverse Avatar Working Network), o público é atendido por robôs muito especiais. Na verdade, são controlados remotamente por pessoas com severas limitações físicas, como pacientes com esclerose lateral amiotrófica. Esses operadores, chamados de “pilotos”, estão em casa, presos a uma cadeira de rodas ou a uma cama, e acionam os robôs via mouse, tablet ou controle pelo olhar. A abertura do café aconteceu em junho, em Nihonbashi, distrito comercial de Tóquio, e é relativamente comum que engenheiros do Laboratório Ory, startup por trás do projeto, circulem pelo salão aperfeiçoando o experimento. A iniciativa ganhou o prestigioso Good Design Award 2021 e é uma lição de como a inteligência artificial pode significar inclusão e interação. Os robôs Ory também são utilizados em lojas de departamentos, nas quais saúdam os clientes e servem como guias, e em estações de transporte. Visão do salão do café Dawn, em Tóquio, onde os garçons são robôs Divulgação: Ory Lab A longevidade deve ser celebrada, mas isso não ocorre se os idosos estão debilitados e solitários. Nações que estão envelhecendo rapidamente, como é o caso do Brasil, poderão se beneficiar com as iniciativas que vêm sendo implementadas no Japão. Por volta de 2050, uma em cada seis pessoas no planeta terá mais de 65 anos. O governo japonês tem pressa: quer seus cidadãos saudáveis e ativos pelo maior tempo possível, e tem estimulado as empresas a manter seus funcionários até os 70 anos. Atualmente, 33% dos japoneses entre 70 e 74 trabalham, enquanto o percentual era de 23% há uma década. A Sociedade de Gerontologia daquele país quer, inclusive, reclassificar a faixa etária entre 65 e 74 anos como “pré-velhos” – uma espécie de "pré-adolescência" da velhice.
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Como as vacinas de RNA que nos salvaram da covid-19 podem derrotar outras doenças

sab, 25/12/2021 - 17:37

Desenvolvida nos últimos 30 anos, tecnologia pode ser central no combate a muitas enfermidades, da AIDS à chicungunha. Já há ensaios clínicos em curso que usam a tecnologia de RNA para tratamento de outras doenças, além da covid-19 Getty Images/BBC Há apenas um ano, a pesquisadora britânica Anna Blakney trabalhava em um campo da ciência pouco conhecido do público em geral, e bastante especializado. Poucas pessoas fora do meio científico tinham ouvido falar do tipo de pesquisa que ela realizava no seu laboratório em Londres: o desenvolvimento de vacinas de RNA. Quando Blakney começou em 2016 seu PhD na universidade Imperial College, em Londres, "muitas pessoas duvidavam que a vacina com uso de RNA pudesse funcionar", diz ela. Em 2019, uma palestra oferecida por Blakney recebeu algumas dezenas de pessoas. Agora, "todo o campo de (uso de tecnologia com) RNA está explodindo. É uma grande mudança na medicina", afirma a pesquisadora. Professora assistente na British Columbia University, no Canadá, Blakney agora tem mais de 250 mil seguidores na plataforma de redes sociais TikTok e mais de 3,7 milhões de "curtidas" nesta rede. Ela diz que estava "lugar certo e na hora certa" para fazer parte de um progresso nas pesquisas em uma velocidade muito acima do normal. Devido à pandemia de coronavírus, muitas pessoas ouviram falar e receberam vacinas de RNA da Pfizer/BioNTech ou da Moderna. Com o progresso rápido da tecnologia devido ao grande investimento feito por causa da pandemia, muitas dúvidas e hipóteses para investigação surgiram: as vacinas de RNA poderiam ajudar a curar certos tipos de câncer, HIV, doenças tropicais (como malária)? Elas poderiam ajudar a criar uma "imunidade sobre-humana"? LEIA MAIS: Um ano depois do 1º vacinado, quais as lições sobre eficácia, imunidade e 'vencedores' da corrida das vacinas? Tecnologia de vacinas de RNA mensageiro não é nova, diz pioneiro da técnica Os três passos do método revolucionário para criar vacinas de RNA Sem necessidade de vírus mortais dentro de ovos de galinhas O ácido ribonucléico mensageiro, ou RNA, é uma molécula em formato de fita que carrega o código genético do DNA para a produção de proteínas em uma célula. Diferente do DNA, que é composto por uma fita dupla de códigos (formando a famosa hélice), o RNA é composto por uma fita simples. Sem o RNA, seu código genético não seria usado, proteínas não seriam produzidas e seu corpo não funcionaria. Em uma metáfora simples, se o DNA fosse um cartão de banco, o RNA seria o leitor do cartão. Quando um vírus está dentro de nossas células, ele libera seu próprio RNA, enganando nossas células sequestradas para que produzam cópias do vírus, na forma de proteínas virais, que comprometem nosso sistema imunológico. As vacinas tradicionais funcionam injetando proteínas virais inativadas chamadas antígenos, que estimulam o sistema imunológico do corpo a reconhecer o vírus quando ele tenta infectar o corpo. A genialidade das vacinas de RNA é que não é preciso injetar os antígenos: o que essas vacinas fazem é usar a sequência genética ou "código" do antígeno traduzido em RNA, para provocar uma resposta do sistema imune. Depois, o RNA artificial desaparece, destruído pelas defesas naturais do corpo — incluindo as enzimas que o decompõem, deixando-nos apenas com os anticorpos. Em comparação com as vacinas tradicionais, a vacina de RNA é mais segura para produzir, mais rápida e mais barata. Não são necessários enormes laboratórios com altos níveis de biossegurança que desenvolvem vírus mortais dentro de ovos de galinha, como é o caso de muitas vacinas tradicionais. A chegada das vacinas contra covid foi comemorada em todo mundo Getty Images/BBC Em vez disso, um único laboratório pode sequenciar as proteínas do antígeno e enviar este código por e-mail para o outro lado do planeta. Com essa informação, um laboratório poderia produzir "um milhão de doses de mRNA em um único tubo de ensaio de 100 ml", diz Blakney. Com a pandemia de coronavírus, vimos como esse processo acontece em tempo real. Correndo contra a covid-19 Em 10 de janeiro de 2020, Zhang Yongzhen, professor de zoonoses no Centro para Controle e Prevenção de Doenças da China em Pequim, sequenciou o genoma do coronavírus e o publicou no dia seguinte. A covid-19 foi declarada uma pandemia pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 11 de março. Em 16 de março, a partir da sequência feita por Zhang, a primeira vacina de mRNA começou a ser testada na fase 1 de um ensaio clínico (com humanos). Em 11 de dezembro de 2020, a agência sanitária dos EUA, a Food and Drug Administration (FDA), aprovou a vacina Pfizer-BioNTech contra a covid-19. Ela se tornou não apenas a primeira vacina de mRNA aprovada para uso em humanos, mas também a primeira a ter mostrado nos ensaios clínicos uma taxa de eficácia de 95%. Já a vacina de mRNA da Moderna contra a covid-19 foi aprovada pouco depois, em 18 de dezembro. Antes, a vacina detentora do título de "produzida mais rapidamente na história" era contra a caxumba, que precisou de quatro anos para ser desenvolvida. Já as vacinas da Moderna e Pfizer-BioNTech precisaram de apenas 11 meses. A teoria por trás da vacina de mRNA tem a assinatura dos cientistas da Universidade da Pensilvânia Katalin Karikó e Drew Weissman. Eles receberam recentemente o prêmio Lasker 2021, o maior dos EUA na área da biomédica. No entanto, ainda em 2019, acreditava-se que as vacinas convencionais de mRNA ainda demorariam pelo menos cinco anos para se tornarem realmente aplicáveis na população. A pandemia acelerou este cronograma. Métodos de entrega: os 'heróis esquecidos' Importante colaboradora de Weissman e Karikó, a pesquisadora Kathryn Whitehead, professora associada de engenharia química e biomédica na Universidade Carnegie Mellon, admite que "não havia muitas pessoas envolvidas no mundo das terapias de mRNA que imaginariam taxas de eficácia iniciais de 95% neste cenário de emergência." Mas agora, as possibilidades parecem infinitas. Ou, como diz Blakney: "Bem, já funcionou para uma glicoproteína viral, então que outras vacinas podemos fazer com ela? E o que podemos fazer além disso?" Na Universidade de Rochester, Dragony Fu, professor associado do departamento de biologia, recebeu um financiamento da US National Science Foundation (Fundação Nacional da Ciência dos EUA) para seu laboratório acelerar a pesquisa sobre proteínas de RNA. Ele lembra que, antes da covid-19 existir, já havia pesquisas de vacinas de mRNA contra os vírus do HIV, zika, herpes, além do parasita da malária. SAIBA MAIS: Teste em macacos de vacina de RNA mensageiro contra a Aids mostra 79% de redução do risco de infecção "A outra categoria é das doenças autoimunes", diz o pesquisador. "É intrigante porque vai além da definição estrita do que é uma vacina". Fu acredita que o futuro pode envolver "tratamentos" de mRNA, por exemplo, para reduzir inflamações. Yizhou Dong, professor associado de farmácia e farmacologia da Ohio State University, é especialista em pequenas bolas de gordura que envolvem o mRNA de forma a entregá-lo com segurança às células, sem que nosso corpo destrua esse material genético imediatamente. Esses lipídios foram descritos como o "herói esquecido" desta tecnologia — se este método de entrega não tivesse sido aperfeiçoado e aprovado pelo FDA em 2018, possivelmente não haveria as cobiçadas vacinas de mRNA de 2020. Graças ao avanço combinado da entrega por lipídios e da tecnologia de mRNA, estão em desenvolvimento os projetos Translate Bio para fibrose cística e esclerose múltipla; uma vacina de mRNA da Gritstone Oncology e Gilead Sciences para HIV; terapias para fibrose cística e doenças cardíacas da Arcturus Therapeutics; e tratamentos de doenças pulmonares graves e asma pela start-up alemã Ethris em parceria com a AstraZeneca. Katalin Karikó (na imagem) e Drew Weissman foram pioneiros no uso da tecnologia Getty Images/BBC Uma solução para as doenças negligenciadas? Tratamentos para doenças tropicais também estão sendo explorados. A Moderna está perto da fase dois (de um total de três) dos ensaios clínicos com vacinas de mRNA para zika e chicungunha. São doenças consideradas negligenciadas por afetar populações de países mais pobres, não recebendo verbas para pesquisa e outros investimentos necessários. A velocidade de produção e o custo das vacinas de mRNA podem driblar as barreiras atuais que fazem destas doenças negligenciadas. Mas talvez a próxima vacina de mRNA a chegar a nós seja contra um inimigo mais conhecido: a gripe. Os vírus responsáveis por ela causam entre 290 mil e 650 mil mortes anualmente em todo o mundo. "Essas vacinas de mRNA estão em desenvolvimento há anos, e os ensaios clínicos até agora são animadores. Atualmente, existem cinco testes clínicos para influenza A, incluindo um já na fase dois", diz Whitehead. Esses avanços novamente podem chegar no momento certo: Paul Hunter, professor da Universidade de East Anglia, no Reino Unido, e também consultor da OMS, diz que, em alguns países, epidemias de influenza podem causar mais mortes do que a covid-19. Várias empresas farmacêuticas também estão investindo em vacinas de mRNA como tratamento para o câncer. "As células cancerosas costumam ter certos marcadores em sua superfície que o resto das células no corpo não têm", explica Blakney. "Você pode treinar o sistema imunológico para reconhecer e matar essas células, assim como você pode treinar seu sistema imunológico para reconhecer e matar um vírus. É a mesma ideia, basta descobrir quais proteínas estão na superfície das células tumorais e usá-las como uma vacina." A ideia de terapias de mRNA individualizadas para câncer tem sido tentadora há anos, na qual propõe-se que vacinas personalizadas sejam entregues a cada paciente. A tecnologia usada nas vacinas pode combater certos tipos de câncer Getty Images/BBC Brasil "Um tumor é removido, sequenciado, você observa o que está na superfície e, então, uma vacina é feita especificamente para você", exemplifica a pesquisadora. Embora não haja ainda ensaios clínicos testando isso, há quem veja também na tecnologia do mRNA a possibilidade de driblar a resistência aos antibióticos. "Potencialmente, você poderia imaginar a produção de uma vacina contra um antígeno bacteriano como o C. difficile ou contra alguns (patógenos) que são realmente difíceis de tratar", diz Blakney. Também existe a possibilidade de aplicações comerciais de saúde e bem-estar. Por exemplo, Fu sugere que a intolerância à lactose, que afeta centenas de milhões de pessoas de ascendência asiática — incluindo ele mesmo — e estimadas 68% da população mundial, pode um dia ser o alvo. "Não tenho a proteína que me permite quebrar a lactose. No futuro, poderíamos desenvolver alguma forma de transmitir uma mensagem, o mRNA, que criará a proteína que quebra a lactose… Não é uma (demanda para algo que) ameaça à vida, mas eu imagino que seria uma indústria multibilionária. " No Estado de Ohio, EUA, Dong testou com sucesso o controle do colesterol em ratos. Pessoas com altos níveis da proteína PCSK9 tendem a ter colesterol alto e desenvolver doenças cardíacas precocemente. "Percebemos que após um tratamento [em ratos], fomos capazes de reduzir o nível da proteína PCSK9 em mais de 95%. Essa é definitivamente uma direção de pesquisa muito importante", diz ele. De acordo com o pesquisador, pelo menos uma empresa de biotecnologia está planejando um ensaio clínico usando mRNA para inibir a PCSK9. Tudo isso levanta a questão: poderiam as terapias de mRNA nos dar uma imunidade quase sobre-humana? Céu é o limite? Vacinas de RNA permitiram a entrega de doses contra a covid-19 em tempo recorde Getty Images/BBC Fato é que as vacinas de mRNA contra a covid-19 levaram algumas pessoas a produzir níveis muito altos de anticorpos, capazes de neutralizar várias variantes do coronavírus de uma só vez. Também existe a possibilidade futura de misturar várias vacinas de mRNA em uma única dose, o que eventualmente poderia prevenir cânceres e vírus ao mesmo tempo. Por enquanto, porém, é mais palpável uma vacina combinada contra a covid-19 e gripes, o que vem sendo estudado tanto pela Moderna quanto pela Novavax. No entanto, antes de ficarmos animados demais, algumas perguntas sobre as vacinas de mRNA permanecem. Uma delas é sobre a duração da imunidade gerada e a necessidade de doses de reforço, que eventualmente podem levar a um acúmulo de reações desagradáveis. Reações anafiláticas foram observadas em aproximadamente 2 a 5 pessoas por milhão de vacinadas nos Estados Unidos, embora não haja registro de mortes. A taxa de reações foi ligeiramente maior para a vacina Pfizer-BioNTech, de 4,7 por milhão, do que para a vacina da Moderna (2,5 por milhão). Embora a taxa geral seja baixa, ela é 11 vezes maior do que da vacina contra a gripe. "Ainda estamos trabalhando para entender quanto tempo dura a resposta dos anticorpos, bem como a resposta celular", diz Blakney. "Agora, há boas evidências de que você consegue com as vacinas de mRNA uma resposta das células T de memória realmente boa. Mas como esses ensaios clínicos têm apenas um ano e meio na maioria dos casos, ainda estamos tentando entender quanto dura essa imunidade." A pesquisadora aponta que, para a maioria das pessoas, provavelmente não é desejável "tomar várias doses todos os anos que te nocauteiam por alguns três dias." No entanto, o laboratório de Blakney na Universidade de British Columbia (UBC), no Canadá, está trabalhando em alternativa: o mRNA autorreplicativo. Ele tem os mesmos componentes estruturais do mRNA normal, exceto que, uma vez dentro da célula, pode fazer cópias de si mesmo. "Isso é realmente vantajoso porque permite que você use uma dose muito menor, geralmente cerca de 100 vezes menos do que o mRNA", explica Blakney. Isso significa mais retorno sobre o investimento e menos dor no braço. Independente dos cenários vislumbrados para a tecnologia de mRNA que realmente se concretizarão, já sabemos que esse é um nome para se ter em mente — afinal, ela já permitiu que milhares de doses contra a covid-19 chegassem até nós em tempo recorde e provavelmente continuará trazendo grandes novidades.
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“O preconceito contra o idoso é avassalador”, diz médico especializado em perda de audição

qui, 23/12/2021 - 07:01

Justin Golub, professor da Universidade de Columbia, afirma que subestimar a surdez é negligência, porque ela está associada a quedas, depressão e declínio cognitivo Com essa terceira coluna, encerro minha cobertura do 2021 Century Summit, evento da Universidade de Stanford que aconteceu no começo do mês. A mobilização crescente em relação ao envelhecimento é promissora, mas não nos enganemos: estamos apenas arranhando a superfície da questão. É veemente o depoimento do médico Justin Golub, professor de cirurgia otorrinolaringológica na Universidade de Columbia, que investiga como a perda de audição que ocorre na velhice afeta o cérebro. Ele dirige um laboratório parcialmente financiado pelo National Institutes of Health (NIH), que reúne centros de pesquisa nos Estados Unidos, e dispara: “a perda de audição é um dos principais fatores de risco para o surgimento de demência, mas é modificável, isto é, pode ser evitada. No entanto, é aí que constatamos como o preconceito contra o idoso é avassalador. Basta ver a diferença do tratamento dado a uma criança e a um velho com problemas de audição. Enquanto todos se mobilizarão para buscar uma solução para a criança, os idosos, com frequência, serão informados de que a condição é ‘normal’ nessa fase da vida. Trata-se de negligência, a surdez está associada a quedas, depressão e declínio cognitivo”. Justin Golub, professor de cirurgia otorrinolaringológica na Universidade de Columbia, investiga como a perda de audição que ocorre na velhice afeta o cérebro Columbia University O depoimento do doutor Golub ilustra com precisão um dos três eixos de discussão do evento: “Repensando o cuidado” (“Rethinking care”), que deveria acompanhar os indivíduos do nascimento à morte. Os outros dois pilares do Century Summit foram “A compressão intergeracional” (“The intergenerational compact”) – já que assistimos, pela primeira vez na História da humanidade, a cinco gerações vivendo no planeta – e “Reinventando a segunda metade da vida” (“Reinventing the second half of life”). Laura Carstensen, diretora-fundadora do Stanford Center on Longevity e professora de psicologia na universidade, afirmou: “a longevidade depende de tudo o que foi semeado antes. Os primeiros anos são críticos, mas tudo no curso de vida é relevante. Os 30 anos de longevidade que ganhamos do século XX apontam para um novo mapa. Temos que ter mais tempo para estudar, em diferentes fases da vida, até porque o que aprendemos na universidade, aos 20 anos, não é suficiente para uma trajetória profissional que vai durar cinco, seis décadas. Temos que poder ficar um período sem trabalhar para cuidar dos filhos pequenos. Quem se dedica a uma atividade braçal deve ter a chance de se qualificar e, quando falo de aprendizado contínuo, não me refiro a voltar para os bancos escolares. Ele pode ser proporcionado pelos empregadores, ou acontecer em centros comunitários”. Dez mil norte-americanos rompem a barreira dos 65 anos diariamente. Como lembrou a jornalista Paula Span, responsável pelas colunas “New old age” (“Nova velhice”) e “Generation Grandparent” (“Geração Avós”), no jornal “The New York Times”, o governo do presidente Joe Biden incluiu o cuidado no projeto orçamentário dedicado à infraestrutura, com status semelhante à construção de pontes e estradas, tal a sua importância para o funcionamento da economia. E cuidar significa garantir que o idoso não se torne invisível. Aos 87 anos, Pauline Boss, pioneira dos estudos sobre estresse familiar – e ela própria cuidadora do marido – sugeriu que as pessoas enxerguem a riqueza de seus entes queridos mais velhos: “eu, por exemplo, vivi a Segunda Guerra Mundial, a insegurança de uma época muito sombria, e aprendi a superar as adversidades. Idosos têm lições de resistência e perseverança. Por isso, visite, converse e grave as conversas com eles”.
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Unicamp nota alta em estupros seguidos por 'apagão' de memória e cria parceria com centro de toxicologia para investigação

qua, 22/12/2021 - 08:26

Crimes voltaram à discussão após caso de influencer em Jaguariúna (SP). Vítimas têm perfil de baixo consumo de álcool e drogas, diz médica do Hospital da Mulher da Unicamp. Banco de dados será inédito no Brasil. O Caism, em Campinas (SP), é referência nacional nos cuidados com a saúde da mulher Reprodução/EPTV Aumentou, nos últimos anos, o número de atendimentos a mulheres vítimas de estupro que relatam, após a violência, terem sofrido apagão de memória durante o crime. A realidade é registrada no Centro de Atenção Integral à Saúde da Mulher (Caism), o Hospital da Mulher da Unicamp, em Campinas (SP), e deu origem a uma parceria com o Centro de Informação e Assistência Toxicológica (Ciatox) para que os casos sejam investigados e um mapeamento inédito de dados seja feito no Brasil. O debate sobre os casos de mulheres que são dopadas e estupradas voltou à discussão após a influencer Franciane Andrade, de 23 anos, relatar ter sido sexualmente violentada a partir desta dinâmica no Rodeio de Jaguariúna. Um exame feito por ela constatou, segundo a defesa, a substância usada no golpe "boa noite, Cinderela". 'Boa noite, Cinderela': entenda como droga atua na vítima até gerar efeito hipnótico e saiba como ajudar O Caism avalia que é precoce a divulgação dos números da iniciativa até o momento, já que o levantamento ainda está em andamento. No entanto, a médica da área de atendimento especial do hospital, Arlete Fernandes, adiantou ao g1 uma característica das vítimas. "A população de mulheres atendida pelo Caism tem a característica de baixo consumo de álcool e outras drogas durante a situação de violência quando comparamos com o descrito em estudos internacionais, mesmo em adolescentes", explica a médica. Entenda as etapas do 'boa noite, Cinderela' Arte/g1 Caism e Ciatox: como funciona a parceria? As vítimas de violência sexual chegam para atendimento na emergência do Caism, que é referência nos cuidados em saúde da mulher no país. A partir desta semana, o hospital vai passar a receber as mulheres via sistema de regulação de vagas. Aquelas que recebem o diagnóstico do estupro, mas relatam não ter lembranças do ocorrido, são questionadas se desejam fazer a coleta de toxicológicos para avaliação. A realização do exame depende do consentimento delas. "Temos feito isso [sugestão de exame toxicológico] para termos dados fidedignos a respeito [de casos de mulheres que são dopadas para estupro]", explica Arlete. Se a vítima aceita fazer o exame e é encaminhada ao Ciatox, a coleta pode ser realizada por meio da urina ou sangue. O toxicologista Rafael Lanaro, que participa da iniciativa no laboratório, alerta que a testagem deve ser feita o mais rápido possível. "Algumas [substâncias] somem em 24h. O tempo ideal para coleta é 12h após a droga entrar no corpo, isso para todos os tipos usados. Um dia depois, as chances de detecção já caem para 90%; 48h depois, fica entre 70% e 60%. Uma semana depois, essa porcentagem já fica muito sutil, em torno de 30% para menos", explica. E depois do exame toxicológico? Arlete ressalta que, além do atendimento dispensado às mulheres na emergência e a coleta de exames toxicológicos, os cuidados das profilaxias devem ser feitos nas primeiras 72 horas após o crime. "Neste período, fazemos a anticoncepção de emergência e as medicações para prevenir o HIV, hepatite B e as infecções por clamídia e gonococo", explica a médica. A partir do atendimento inicial, as mulheres são acompanhadas por seis meses com equipe multidisciplinar, incluindo psicólogos e psiquiatras, para diminuir os agravos para a saúde mental. "É importante a seguinte mensagem: toda mulher que sofrer violência sexual deve procurar o serviço de saúde o quanto antes, antes de completar as 72h. A efetividade da profilaxia será maior", alerta. Influencer denunciou estupro em camarote de rodeio em SP Reprodução Por que perfilar as vítimas? "O Brasil é pouco engajado na causa de mulheres que são dopadas e estupradas", diz Lanaro. A realidade, segundo ele, fica demonstrada através da inexistência de dados sobre as vítimas. Dessa forma, traçar ações de combate fica mais difícil. A parceria com o Caism busca sanar este gargalo. "Se você procurar a estatística epidemiológica disso [casos de mulheres dopadas e estupradas] hoje, não tem. Essa é uma falha. Quais são as substâncias usadas? Que perfil as vítimas têm? Nunca antes procuramos essas respostas", finaliza. Exames de sangue e urina são usados em testes toxicológicos Patrick Harrison/CancerResearch UK/BBC PLAYLIST: tudo sobre Campinas e Região Veja mais notícias da região no g1 Campinas
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Alzheimer do pai inspirou jornalista a fazer documentário

ter, 21/12/2021 - 07:00

“Sky blossom” acompanha cinco jovens que cuidam de adultos com alguma deficiência No domingo, a coluna foi sobre três mulheres inspiradoras, todas acima dos 60 anos, que tive o prazer de conhecer, virtualmente, no 2021 Century Summit. Hoje, quero compartilhar histórias de criadores e empreendedores que também participaram do evento e se valeram da experiência com seus idosos para gerar discussão, fazer arte e abrir novas frentes de negócios. O jornalista Richard Lui, âncora das emissoras norte-americanas NBC e MSNBC, tomou uma decisão que muitos considerariam uma sentença de morte para sua carreira. Há sete anos, pediu para diminuir a jornada de trabalho para poder se dedicar ao pai, diagnosticado com a doença de Alzheimer. Entrando no universo dos cuidadores, deparou-se com um dado impactante: nos Estados Unidos, cerca de 5.4 milhões de adolescentes e jovens cuidam de um adulto com algum tipo de deficiência. Em 2020, depois de quatro anos de produção, lançou “Sky blossom: diaries of the next greatest generation”. O jornalista Richard Lui em visita ao pai, que tem Alzheimer NBC O documentário acompanha a vida de cinco jovens, com idades que variam entre 15 e 26 anos, que estudam, trabalham e ainda cuidam de um adulto – como um pai diabético que sofreu amputação das pernas; outro com câncer na garganta; ou o avô com demência. São meninas e meninos que saem da escola e limpam ferimentos, aplicam injeções e até pagam as contas da casa, numa rotina bem diferente da dos colegas de turma. Lui escolheu o título porque o termo “sky blossom”, o equivalente a “flores desabrochando no céu”, era utilizado pelos soldados quando avistavam os paraquedistas em sua descida para ajudá-los no combate. Sobre a segunda parte (“diaries of the next greatest generation”), explica: “são jovens que nos dão lições diárias de empatia e altruísmo. Não tenho dúvidas de que serão a próxima grande geração do país, capaz de pensar numa nação inclusiva”. Cena do documentário "Sky blossom" Divulgação A trajetória de empreendedorismo de Jake Rothstein está intimamente ligada à vida familiar. Quando o avô recebeu o diagnóstico de Alzheimer, a avó se tornou cuidadora em período integral. Sobrecarregada, pedia auxílio ao neto para conseguir “respiros”, como tomar um café com as amigas ou ir ao dentista. “Procurei serviços de cuidadores e todos eram caros, com pacotes fechados que previam pelo menos 20 horas semanais de serviço, quando minha avó precisava de bem menos que isso”, lembra Rothstein, que acabou criando a Papa, empresa que oferece um leque de serviços prestados por estudantes universitários: eles podem ir ao mercado, acompanhar o idoso a uma consulta, ou fazer companhia durante algumas horas. Quando o avô, em fase avançada de demência, foi internado numa instituição, a avó se viu morando sozinha numa casa de dois andares. “Ela estava bem física e mentalmente, mas já tinha 87 anos e precisava de ajuda, inclusive para buscar uma moradia menor. Foi quando me dei conta de que, certamente, haveria muitos na mesma situação”, afirmou. Foi o ponto de partida para sua segunda empresa, UpsideHoM, que oferece apartamentos, faz mudanças e reparos e descomplica a rotina das pessoas mais velhas. Dana Griffin, educada pelos avós na Romênia, contou que sua trajetória foi moldada pela convivência com gente mais velha. Essas referências a levaram a criar a Eldera, plataforma que promove encontros virtuais semanais entre idosos e crianças e adolescentes. São os próprios pais que fazem a inscrição no site e, atualmente, há uma fila de espera por esses mentores maduros. “Os mais velhos dispõem de tempo e sabedoria para compartilhar suas experiências, enquanto as crianças sempre têm algo ligado à tecnologia para ensinar. Depois de um ano, 70% das duplas formadas ainda se veem semanalmente”, disse. Sian-Pierre Regis e Lawrence Kosick também participaram do evento, mas já escrevi sobre ambos em colunas anteriores. Regis dirigiu um documentário sobre a mãe, que perdeu o emprego aos 75 anos, sem qualquer reserva financeira. Kosick queria ajudar o pai, de quase 90 anos, a continuar prestando consultoria e se manter ativo, e acabou fundando uma plataforma on-line com cursos para adultos maduros na qual os professores estão perto da faixa etária dos alunos – claro, seu pai é um deles! Quem quiser pode saber mais sobre esses trabalhos nos hiperlinks: “Duty free” e GetSetUp.
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'Por que congelei minha mãe morta aos 83 anos'

seg, 20/12/2021 - 18:45

Coreano pagou para que o corpo de sua mãe fosse criogenicamente preservado por um século. 'Por que congelei minha mãe morta aos 83 anos' Reprodução/BBC Kim Jung-kil (nome fictício) pagou para congelarem o corpo de sua mãe, que morreu de câncer aos 83 anos em 2020. Ele não está sozinho. Há cerca de 600 corpos humanos criogenicamente congelados ao redor do mundo. A mãe de Jung-kil está numa unidade de criopreservação em Moscou, por exemplo. Nos Estados Unidos, esse processo pode custar o equivalente a R$ 160 mil. Criopreservação é um processo de congelamento do corpo a temperaturas baixíssimas, na esperança de que a ciência no futuro seja capaz de trazer essas pessoas de volta à vida. O sangue da pessoa morta é drenado e substituído por conservantes e anticongelantes de uso médico, que evitam que cristais de gelo se formem no corpo e danifiquem as células e os tecidos. Se isso for feito imediatamente depois que o coração parar de bater e enquanto os tecidos ainda estiverem intactos, em tese médicos e cientistas do futuro terão maiores chances de sucesso. Assista ao vídeo. “Atualmente, não estou certo de que o descongelamento seja teoricamente possível, mas ele pode vir a ser”, afirma Kim C-Yoon, da Universidade Konkuk, na Coreia do Sul. Segundo o pesquisador, se houvesse investimento em estudos aprofundados, essa pergunta poderia ser respondida em até dez anos. 'Por que congelei minha mãe morta aos 83 anos' Reprodução/BBC Alguns especialistas que acreditam na viabilidade dessa técnica afirmam que a nanotecnologia (com robôs minúsculos) pode, por exemplo, tratar as células afetadas ao longo do tempo. Hoje não há técnicas viáveis para descongelar as partes interna e externa do corpo com a mesma temperatura. Atualmente, a criopreservação é utilizada em hospitais para conservar partes do corpo humano, como esperma, óvulos, células sanguíneas e embriões. Mas ainda há uma alta taxa de fracasso nesse processo, e no caso de um corpo humano inteiro (altamente complexo), o risco de isso não funcionar é muito maior. Para Clive Coen, professor de neurociência do King’s College London, a criopreservação de corpos humanos inteiros é mais baseada no pensamento mágico do que em evidências científicas. “Apesar de diversas declarações das empresas de criogênese, elas falharam em demonstrar que essa extraordinária massa de tecidos que constituem o corpo humano pode ser protegida pelo líquido anticongelamento que eles injetam no corpo após a morte”, disse à BBC. John Armitage, professor e diretor de banco de tecidos da Universidade de Bristol, acredita que “nunca se pode dizer 'nunca' em ciência”, mas há pouca chance de a criopreservação se mostrar viável tendo em vista o que se sabe hoje. Segundo ele, retirar tecidos de pessoas saudáveis para serem armazenados para uso futuro é uma coisa, mas pegar um corpo doente, congelá-lo com segurança (incluindo a estrutura complexa do cérebro) e reativá-lo é uma tarefa muito, muito mais difícil. "Quais são as chances de não haver algum dano? Ainda não estamos no estágio de criopreservação de órgãos, então fazer isso com o corpo inteiro seria um grande desafio", disse Armitage à BBC. 'Por que congelei minha mãe morta aos 83 anos' Reprodução/BBC Barry Fuller, professor de ciência cirúrgica e medicina de baixa temperatura na University College London (UCL), afirmou à BBC que o primeiro passo da pesquisa de criopreservação de corpos inteiros é demonstrar que os órgãos humanos podem ser criopreservados para transplante. No momento, contudo, não há equipamento para isso. "É por isso que temos que dizer que, no momento, não temos nenhuma evidência objetiva de que um corpo humano inteiro possa sobreviver à criopreservação com células que funcionarão após a reativação", disse ele. O Instituto de Criogênese, sediado nos EUA, contesta o argumento baseado no ônus da prova de que o processo é inviável porque até hoje ninguém foi revivido ainda. Além disso, afirma que nenhum cientista apresentou uma prova irrefutável de que a teoria do reavivamento pós-congelamento não funciona. “Nossa premissa não é que os reavivamentos da criopreservação bem-sucedidos sejam hoje um fato indiscutível, mas sim que as evidências e a tecnologia atuais sugerem fortemente que o reavivamento será possível no futuro.” Vídeos: Os mais assistidos do g1 nos últimos 7 dias
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Estudo aponta que meia dose de AstraZeneca produz anticorpos

seg, 20/12/2021 - 16:13

Cerca de 20 mil pessoas participaram do projeto 'Viana Vacinada', no Espírito Santo. Meia dose do imunizante induziu anticorpos em 99,8% dos participantes. Estudo apontou que meia dose de AstraZeneca produz anticorpos O estudo sobre a aplicação de meia dose de AstraZeneca em voluntários de Viana, no Espírito Santo, mostrou que o imunizante induziu anticorpos contra o coronavírus em 99,8% dos participantes. O resultado foi divulgado em coletiva de imprensa realizada nesta segunda-feira (20). O resultado preliminar do estudo, divulgado em outubro, já mostrava a eficácia da aplicação com meia dose. O estudo faz parte do projeto "Viana Vacinada", do Governo do Espírito Santo e da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), que avaliou a eficácia de meia dose do imunizante contra a Covid-19. Vacina da AstraZeneca contra Covid-19 Divulgação Veja perguntas e respostas sobre o projeto 'Viana Vacinada' Cerca de 20 mil pessoas com idades entre 18 e 49 anos participaram do estudo. A primeira meia dose foi aplicada nos voluntários em junho deste ano e a segunda dose foi aplicada oito semanas depois, em agosto. Viana foi a primeira cidade a atingir 100% de adultos vacinados com ao menos uma dose de imunizantes contra a Covid-19 no Espírito Santo. A pesquisa testou se a aplicação das duas meia dose é capaz de produzir anticorpos neutralizantes (protetores) e células de defesa. O estudo também investiga se os participantes terão a redução da incidência de novos casos de Covid-19 da mesma forma que quem recebeu a dose padrão da AstraZeneca. “Comprovada a efetividade da aplicação da meia dose, as autoridades sanitárias do Brasil e do mundo tem evidência científica para dobarem a capacidade de imunização com a vacina da Fiocruz. Sabemos que, em muitas regiões mais pobres do mundo, o alcance da vacinação tem sido mais limitado. E nos locais com mais acesso ao produto, a oferta de doses de reforço também poderá ser aumentada”, afirmou a coordenadora científica do estudo e gerente de Atenção à Saúde do Hospital Universitário Cassiano Antonio Moraes (Hucam), Valéria Valim. Resultados preliminares já apontavam que meia dose da AstraZeneca produz anticorpos em voluntários Conforme os testes em voluntários, a meia dose foi capaz de induzir a produção de anticorpos neutralizantes em 99,8% dos participantes, resultado semelhante ao alcançado no esquema com dose padrão. Em pré-imunes, ou seja, pessoas que já tiveram a doença ou foram vacinadas anteriormente, uma meia dose foi suficiente para induzir altos títulos de anticorpos neutralizantes. “Isso mostra que a meia dose pode ser usada para reforço no esquema vacinal”, informou Valim. No grupo dos que não tiveram Covid-19 e nem haviam se vacinado antes, a meia dose foi capaz de induzir resposta mais robusta de biomarcadores de imunização (quimiocinas, citocinas e fatores de crescimento) que a prescrição na bula do produto da AstraZeneca. Nos pré-imunes, a produção desses marcadores foi semelhante nos dois grupos. Outra conclusão foi a de que a duração dos eventos adversos foi menor na meia dose que na cheia. Em geral, foram leves e em proporção de pessoas semelhante à da prescrição de fábrica. A Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep), diante dos resultados apresentados, autorizou que a população de Viana de 18 a 49 anos use a metade da prescrição padrão como reforço no esquema vacinal em todos os postos de imunização da cidade. A adesão a esta etapa do estudo é voluntária. "Não somente quem participou do estudo poderá receber meia dose de reforço, mas também quem recebeu dose padrão de AstraZeneca, CoronaVac ou Pfizer”, disse Valéria Valim. Vídeos: tudo sobre o Espírito Santo Initial plugin text Veja o plantão de últimas notícias do g1 Espírito Santo
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Três mulheres e suas novas vidas depois dos 60 anos

dom, 19/12/2021 - 07:00

Uma chilena; a outra, indiana; e a terceira, norte-americana, compartilham sua visão sobre o envelhecimento ativo O que fazer depois dos 60 anos? Três mulheres inspiradoras compartilharam suas histórias no 2021 Century Summit, evento ligado ao Centro de Longevidade da Universidade de Stanford, realizado de 7 a 9 de dezembro. A chilena Ximena Abogabir, a indiana Ranjita Chakravarty e a norte-americana Mary Rawles têm caminhos totalmente distintos e todos servem de lições sobre como reescrever – e descartar – as ideias sombrias que ainda envolvem o envelhecimento. Ximena Abogabir: militância pela participação política dos idosos Divulgação: Ashoka Começo por Ximena Abogabir, cofundadora da Travesía 100, organização criada em 2018 para o reconhecimento e empoderamento dos indivíduos acima dos 60 anos. Jornalista e publicitária, ela deixou uma carreira de sucesso e abraçou o empreendedorismo social, à frente de iniciativas como “Santiago, como estamos indo?” e a fundação Casa de la Paz, voltada para ações de sustentabilidade e cidadania. Ao completar 70 anos (está com 73), quis ir além: “senti a necessidade de explorar a contradição que vivemos. De um lado, recebemos um prêmio que é a vida mais longa, para ser comemorada e vivida plenamente; do outro, a sociedade nos empurra para sair de cena”, diz. Esse é o propósito da Travesía 100: mobilizar as pessoas para que se tornem centenários ativos. A entidade criou uma rede de idosos que pretende ter atuação política relevante, inclusive na nova Constituição – os chilenos elegeram 155 parlamentares que serão responsáveis por redigir a que substituirá a atual, herdada da ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990). “Desde que comecei a me dedicar ao projeto, passei a me sentir cheia de energia, meu cérebro também rejuvenesceu”, sintetiza. Ranjita Chakravarty em cena do seriado “Never have I ever” Divulgação Desde 1998, Ranjita Chakravarty dirige o departamento de auditoria e análise de risco da Universidade de Stanford. Formada em ciências políticas e relações internacionais na Índia, poderia ser uma eficiente burocrata perto da aposentadoria, mas está a caminho de virar uma celebridade, depois de participar da segunda temporada da série “Never have I ever” (“Eu nunca...”), da Netflix. Ela interpreta a avó paterna da protagonista, Devi (Maitreyi Ramakrishnan), uma adolescente determinada a se transformar numa garota popular na escola, enquanto enfrenta o luto pela morte do pai e vive às turras com a rigidez da mãe. “Sempre fiz teatro comunitário, mas sou de uma geração que não acreditava que fosse possível pagar as contas desse jeito. Graças ao trabalho remoto em Stanford, pude conciliar as gravações com minhas atividades. Vou completar 64 anos em 2022, meus filhos estão crescidos e me sinto livre para fazer o que quiser”, afirma, adiantando que estará na terceira temporada. Mary Rawles tem 73 anos e uma trajetória de classe média numa área próspera da Baía de San Francisco, na Califórnia: foi professora primária durante muitos anos, casou-se e teve filhos. Na faixa dos 30 anos, parou de fumar e começou a se exercitar, mas chegou a engordar 20 quilos na meia-idade. Voltou a se alimentar bem e a praticar atividade física cinco vezes por semana e, aos 66, se tornou personal trainer (nos Estados Unidos, o NASM, que é o certificado do instrutor, não exige diploma em educação física). Criou a Fit for the Rest of Your Life, que inclui aulas presenciais e por Zoom, e conta que, ao se aposentar, descobriu que não estava “apta para ficar em casa”. “Comecei pedindo que me dessem uma chance de mostrar meu trabalho e descobri que nem todos querem instrutores fortes e jovens. Não corro maratonas, mas estou em forma. Quando me perguntam o que me levou a empreender, digo que a gente começa tentando resolver um problema pessoal e acaba querendo fazer o mesmo para os outros”, analisa.
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Cirurgia de catarata está associada a um risco menor de demência

qui, 16/12/2021 - 07:00

Estudo mostra que intervenção leva a uma queda de 30% nas chances de desenvolver o problema À medida que envelhecemos, as chances de desenvolver uma catarata aumentam. O sintoma que logo chama a atenção é a visão embaçada, com a sensação de estar fora de foco. Isso ocorre porque o cristalino vai se tornando opaco e ele funciona como uma lente atrás da íris: sua transparência permite que os raios de luz atravessem e alcancem a retina para formar a imagem. A cirurgia para corrigir o problema existe há décadas e, se no começo envolvia internação e anestesia, hoje a técnica utilizada praticamente não altera a rotina do paciente. Melhor: estudo publicado no começo do mês na revista científica “JAMA Internal Medicine” mostra que o procedimento diminui em 30% o risco de demência na população idosa. Exame oftalmológico: cirurgia de catarata diminui em 30% o risco de demência na população idosa Newarta para Pixabay Pesquisadores da Universidade de Washington analisaram os dados de cerca de 3 mil adultos acima de 65 anos que participam de um estudo conhecido como The Adult Changes in Thought (ACT). Descobriram que as pessoas que se submeteram à cirurgia não somente tinham uma chance 30% menor de desenvolver demência – característica que perdurou por pelo menos uma década depois da operação – como também pareciam mais protegidas da doença de Alzheimer. Cecilia S. Lee, professora da Universidade de Washington e coordenadora do trabalho, afirmou que esse é o tipo de achado de impacto em termos de epidemiologia: “nenhuma outra intervenção sinalizou uma associação tão forte com a redução do risco de demência em indivíduos mais velhos”. Não foi determinado o mecanismo pelo qual a cirurgia atua para reduzir a ameaça de demência, embora os pesquisadores tenham formulado a hipótese de que a melhoria da qualidade sensorial das pessoas operadas contribua para o prognóstico favorável. “O volume de informações sensoriais é importante para a saúde do cérebro”, avaliou Eric Larson, coautor do estudo. Para a professora Cecilia Lee, outra possibilidade é o fato de os indivíduos receberem mais luz azul: “há células na retina, relacionadas à cognição e que regulam os ciclos de sono, que respondem bem à luz azul. A catarata bloqueia a luz azul e a cirurgia pode reativar essas células”. A pesquisa dá um passo decisivo para o aprofundamento de estudos sobre a relação entre a conexão olho-cérebro e quadros de demência. Trabalhos anteriores do mesmo grupo da Universidade de Washington já haviam demonstrado a associação entre outras doenças da retina, como a degeneração macular, e o surgimento de Alzheimer. De acordo com a Sociedade Brasileira de Oftalmologia, há 550 mil novos casos por ano no país. A catarata é o procedimento com maior demanda no SUS e, embora o número de cirurgias tenha dobrado entre 2009 e 2019, há ainda uma grande fila de espera no sistema público de saúde.
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